Novinho em Folha opinião sustentabilidade

Não há Vinhas B!

Ildefonso Martins aborda um tema pertinente e fraturante, no setor vínico e não só, a sustentabilidade. Para ler com atenção, preocupação e muita esperança.

O tema deste mês é a palavra quente do sector atualmente: “Sustentabilidade”.

Mas antes de me focar no tópico, queria fazer um ponto prévio, partilhando uma opinião muito pessoal: tenho grande dificuldade em imaginar que um empresário ou um governante acorde de manhã a pensar: “O que é que eu poderei fazer hoje para estragar um pouco mais o nosso Planeta”?

Parece-me algo muito à vilão de James Bond e pouco à mundo real… Olhar constantemente para as empresas como algo negativo para a sociedade ou para os nossos políticos como pessoas corruptas que fecham os olhos aos maus comportamentos das empresas é algo que me faz bastante confusão.

Dito isto, a crua e dura realidade é que, em termos ambientais, são vários os indicadores que apontam para estarmos hoje piores do que há várias décadas, como se pode ver no documento do Fórum Económico Mundial.

E se pensarmos que o filme de Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente”, já foi há 15 anos e que desde então, passados alguns acordos internacionais em prol do ambiente, parece que as coisas pioraram em vez de melhorar, não podemos deixar de ficar inquietos. 

Apesar deste “wake up call” de Al Gore, na nossa área, o clique deu-se, para mim, quando há cerca de 6 ou 7 anos, numa conferência sobre o futuro do sector alguém mostrou um quadro sobre o impacto das mudanças climáticas na produção de vinho, e lançou a seguinte questão:

Poderá o Reino Unido ser a nova Champagne?”

O foco da apresentação centrou-se em França e as notícias eram “esmagadoras” para Champagne e Bordéus, pois a questão não era se iríamos conseguir proteger essas regiões das alterações climáticas, mas sim onde seria possível no futuro produzir os vinhos que agora eram produzidos nessas regiões.  

No entanto, enquanto português os meus olhos desviaram-se mais para o Sul da Europa, e foi preocupante ver que Portugal, Espanha e Itália tinham também grandes regiões a vermelho.

Mas a realidade é que, aparte um ou outro projeto que surgiu desde esses anos com foco em produção biológica, pouco se falou do tema de uma vitivinicultura sustentável após a divulgação deste estudo.

Até que há 3 anos surge no panorama mundial uma jovem desconhecida sueca, Greta Thunberg, que se “baldou” às aulas para ostentar um cartaz à frente do parlamento.

Com este pequeno gesto ela gerou um movimento estudantil juvenil pela proteção do ambiente, e de repente em todo o mundo começou-se a colocar as alterações climáticas na ordem do dia, e este tema no propósito de marcas e empresas multinacionais.   

Depois deste primeiro “abanão” eis que em 2020 entramos em modo pandemia COVID 19. Com ele cresceu a procura por todos os produtos que se identificassem como “Better for Me” e “Better for All”. E se em 2020 a procura foi crescente, em 2021 ela manteve-se constante. Não há uma semana em que não leia duas ou três notícias sobre Sustentabilidade nos principais meios nacionais que utilizo para me manter atualizado sobre o sector: Marketing de Vinhos; Marketeer; Meios e Publicidade; Grande Consumo.

Claro que sendo o tema global, um dos principais países que tem colocado o “holofote” na Sustentabilidade tem sido os EUA, com o problema dos incêndios florestais na Califórnia a ser um dos maiores exemplos usados para mostrar o impacto que as alterações climáticas estão a ter no planeta.

Esses incêndios, para além de todos os prejuízos que têm feito na flora e na fauna desse estado americano, têm também sido uma das imagens mais visíveis do impacto que as alterações climáticas têm no negócio do vinho, com vários produtores a avisarem já que este ano não poderão produzir os seus vinhos, devido ao efeito que o fumo tem nas uvas.

Felizmente, a Inovação poderá ter uma palavra a dizer, não na proteção das áreas ardidas, mas no aproveitamento das uvas que foram “manchadas” pelas cinzas dos incêndios

Fonte: https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2021-07-04/california-wine-country-faces-one-burning-question

Um outro país que tem sofrido bastante nos últimos anos com o impacto das mudanças climáticas na produção de vinho tem sido a França, onde ainda este ano foi estimado que 1/3 da produção teria sido dizimada por uma forte geada sentida no início do ano.  

Talvez por isso seja cada vez mais natural, pelo menos neste país, que o retalho dê mais espaço aos produtos Bio (e os vinhos estão aí incluídos). A liderar este movimento está o Intermarché, que tem uma estratégia de transformar todos os seus vinhos de marca própria nesta tipologia.

Fonte: https://www.theguardian.com/world/2021/apr/09/french-winemakers-frost-government-freezing-temperatures-crops-vines

Em Portugal ainda não há dados concretos que apontem para uma “revolução” de produtos biológicos nos lineares dos supers e hipermercados, mas foi curioso reparar que recentemente o Continente introduziu na sua gama de vinhos Contemporal algumas referências Biológicas.

Costuma-se dizer no meio que algo só tem sucesso quando é “copiado”, e se for por uma marca de distribuidor maior é o sinal de sucesso, portanto ou o Continente se está a antecipar a uma tendência (o que é menos comum, mas acontece) ou é provável que já haja um nicho considerável de consumidores que estão dispostos a “arriscar” em vinhos biológicos e as vendas estarão a aparecer.

E se do lado do retalho começam a ser dados sinais de que a Sustentabilidade será um tema a ter em conta no futuro, do lado dos produtores isso também já está a ser acautelado.

A região que deu os primeiros passos foi o Alentejo, com o seu Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, mas é sabido que outras regiões se seguirão (ex: Vinhos Verdes) e estará até em equação uma certificação global de Sustentabilidade para a produção nacional, independente das regiões de produção.

E para além deste movimento das CVRs e do IVV na procura de certificações de Sustentabilidade há outros projetos, que não são exclusivos aos produtores vitivinícolas, mas onde estes têm um papel de grande relevo, como o The Porto Protocol, cujo principal objetivo é criar um conjunto de normas para os seus membros aplicarem na luta contra as alterações climáticas. 

Ambas as situações mostram que do lado do produtor o tema está a ser levado a sério.

Fonte: https://www.portoprotocol.com/

Para terminar, não podia deixar também uma nota final de que muitas vezes, e erradamente, se limita a ideia de “Sustentabilidade” ao lado Ecológico/Ambiental, deixando de parte os outros dois pilares: Social e Económico, que em alguns casos são tão ou mais relevantes que o ambiental.

Ainda sobre este tema, e sobre a abrangência do que é ser uma sociedade “Sustentável”, a ONU lançou nos últimos anos uma lista com 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (SDG – Sustainable Development Goals) para 2030, que todas as nações, todas as empresas, todas as pessoas se deveriam esforçar por fazer cumprir.

Do lado corporativo, é natural que as empresas não os consigam abraçar a todos, mas se cada empresa (ou as suas marcas) conseguir, na sua área de atividade, contribuir para que um, dois ou três desses objetivos fiquem mais próximos de ser alcançados penso que podemos ter uma boa dose de confiança de que a Sustentabilidade será em 2030, mais do que uma palavra bonita para vender produtos, uma realidade a nível planetário.

Não será fácil, mas nunca como nestes dois últimos anos se sente que é agora ou nunca!

Inovadoramente vosso,

Ildefonso Martins

Diretor de Inovação e Estratégia da Aveleda

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