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Porto Tónico RTD – uma chapada de (l)uva branca no conservadorismo

No "Novinho em Folha" deste mês, Ildefonso Martins aborda os "Portonic´s", acabados de chegar ao mercado português, e a surpresa (e polémica) que esta novidade causou, nos consumidores e nos diversos players do setor.

Há cerca de um mês as marcas Taylor’s (com Chip Dry & Tonic) e Offley (com Clink and Tonic Water) surgiram no mercado com aquilo que pode ser considerado uma autêntica revolução na mais antiga região demarcada do mundo, o Douro.

Numa clara tentativa de “piscar o olho” a uma geração mais jovem de consumidores, o lançamento destes dois Portonic’s (a versão autorizada pelo IVDP para a comercialização de uma versão embalada do cocktail Porto Tónico) marca, sem dúvida, uma rutura com uma postura mais conservadora que a região tem tido ao longo dos seus mais de 250 anos de história. 

Taylor’s (com Chip Dry & Tonic)
Fonte: https://marketingvinhos.com/2021/05/04/taylors-lanca-chip-dry-tonic/
Offley (com Clink and Tonic Water)
Fonte: https://marketingvinhos.com/2021/05/03/offley-lanca-clink-portonic-em-lata/

O Porto Tónico, um dos mais famosos cocktails vínicos, ganhou então duas versões pré-preparadas em lata (para já duas, mas acredito que várias outras se seguirão…), também comummente designadas no nosso meio por Ready-to-drink (RTDs).  

O lançamento destas bebidas foi algo surpreendente, pois mesmo entre nós portugueses este cocktail não é muito “acarinhado”. Basta vermos a quantidade de Caipirinhas, Mojitos ou Gins Tónicos que são pedidos num bar em comparação com esta receita à base de um ingrediente bem português.

A surpresa foi até maior por se tratar de um cocktail que surge numa região demarcada com mais de 250 anos e onde a última novidade surgiu há pouco mais de 10 anos, com a permissão de serem produzidos Vinhos do Porto Rosé.

Sim, até há 15 anos atrás não existiam Vinhos do Porto da tipologia Rosé… No entanto, apesar de ser algo que faria à partida todo sentido, a verdade é que o impacto criado por essa “novidade” na categoria foi praticamente residual. No final de 2020 os Vinhos do Porto Rosé representavam pouco mais de 1% das vendas de Vinho do Porto.    

Fonte: Elaboração própria a partir de dados estatísticos disponibilizados pelo IVDP (https://areareservada.ivdp.pt/estatisticas_novo2.php?codIdioma=1)

A complexidade da categoria (muitos consumidores têm dificuldade em perceber a diferença entre um Tawny e um Ruby, quanto mais entre um LBV, um Crusted ou um Reserva; um Vintage estará num patamar diferente de todos os outros em termos de notoriedade – mesmo que os consumidores não saibam muito bem o seu processo produtivo) poderá ser um dos motivos que levou a que nos últimos 10 anos as vendas de vinho do Porto tenham caído mais de 16% em volume.

Outro motivo apontado como justificação das quebras no Vinho do Porto está precisamente na sua substituição por Cocktails, para os mesmos momentos de consumo.  

No entanto, o conservadorismo da região, aliada ao reduzido sucesso que foi o Vinho do Porto Rosé, não levaria a prever que este tipo de produto (cocktail pré-preparado) pudesse ser aprovado na região, apesar de o próprio IVDP nos últimos anos fazer uso desse cocktail para promover uma diversificação do consumo de Vinho do Porto.

Fonte: IVDP

É, de todo o modo, positivo ver a nossa maior referência na exportação (o Vinho do Porto, apesar da quebra de vendas continua a ser a categoria com maior peso nas vendas de vinho português para o exterior), fazer uma incursão por um formato que muito tem crescido nos últimos anos e que se prevê que continue a crescer nos próximos anos (ex: estima-se um crescimento médio de 12% ao ano nos próximos 6 anos no mercado dos EUA).  

São vários os exemplos de outras categorias que, com as suas extensões a cocktails, têm contribuído para fazer da ascenção dos RTDs uma sensação no mundo das bebidas alcoólicas, e por isso colocado os RTDs como um dos temas mais falados, muito provavelmente servindo assim de inspiração para que hoje possa existir um Portonic no mercado.

Eis algumas marcas que têm contribuído para o sucesso dos RTDs:

Whiskey – Jack Daniel’s

Gin – Bombay Saphire

Vermute – Martini

Jerez/Sherry – Croft

O Jerez/Sherry é um exemplo especial, pois é um tipo de vinho com várias semelhanças com o Vinho do Porto (também ele é um vinho fortificado do sul da Europa e com bastante complexidade na organização das suas várias expressões), e em que o volume alcoólico poderá estar a ser um impeditivo para “seduzir” um consumidor cada vez mais preocupado com a moderação do seu consumo e por isso, tal como o Vinho do Porto, tem sofrido uma forte quebra nas suas vendas a nível internacional.

Neste caso do Croft Twist, a marca Croft (da González Byass) usou da sua notoriedade no Reino Unido para fazer um “curto-circuito” à categoria Sherry e lançou um cocktail muito popular junto dos consumidores britânicos que visitam o sul de Espanha, sem fazer qualquer menção ao Jerez/Sherry. No entanto como o Croft é a marca de Jerez/Sherry mais vendida no Reino Unido, a ligação de que o Croft Twist se tratava de um cocktail à base de Jerez/Sherry foi imediata.

Vendo os últimos exemplos do Croft Twist e do Martini Fiero, há uma dúvida que fica no ar:

– Não será a lata um movimento demasiado disruptivo para o Porto Tónico? Não seria mais suave o lançamento primeiro em garrafa e posteriormente, após consolidado o conceito, o alargamento ao formato lata? Será que estão a ser “comidas” etapas de crescimento?

Apenas o futuro dirá se este foi ou não o passo certo… Mas olhando para os movimentos recentes de outros concorrentes da Taylor´s e da Offley, é expectável que o Portonic não se fique por estes dois lançamentos. E talvez não se fique apenas pelo formato lata.

A Symington já confirmou que irá lançar uma versão da sua marca Cockburns, a Churchill lançou uma edição limitada do seu Vinho do Porto Branco para ser usado como base para o cocktail, a Boeira apressou-se a dizer que irá também lançar uma versão do Porto Tónico, mas a imagem que divulgou foi de uma garrafa, onde não consta a menção obrigatória de “Portonic”, sem a qual o IVDP não aprovará qualquer cocktail.

E o que farão marcas de Vinho do Porto “emblemáticas” e vistas como “mais comerciais”, como são a Velhotes (da Sogevinus), a Sandeman e a Ferreira (ambas da Sogrape) ou a Porto Cruz (da Gran Cruz)? Ficarão a observar como andará a carruagem até se decidirem juntar a ela? Mas será que quando tentarem correr para o apanhar não terão já perdido o comboio?

Poderá esta nova categoria ganhar uma dimensão tal, que todas as casas de vinho do Porto se verão tentadas a ter uma visão sua deste produto, tal como acontece actualmente com os Vintage, em que não há casa que se preze que não o tenha?

Nesta fase as dúvidas são mais que as certezas e ainda estamos muito no início para poder prever o que se passará nos próximos meses/anos, mas uma coisa é certa, o Portonic foi uma “latada” no charco e dificilmente a região poderá passar indiferente a estas “ondas” de Inovação que a Taylor’s e a Sogrape criaram. Estarão os outros players prontos para as surfar?

Inovadoramente vosso,

Ildefonso Martins

Diretor de Inovação e Estratégia da Aveleda

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