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O impacto da pandemia nos vinhos e os caminhos do futuro – a entrevista com Paulo Ramos

Uma entrevista com Paulo Ramos, da Quinta de Paços, que nos elucida sobre as dificuldades que a pandemia coloca ao setor dos vinhos, e na qual aborda também caminhos e estratégias a seguir, para que os vinhos portugueses sejam mesmo “the next big thing”.

Paulo Ramos - produtor na Casa de Paços, especialista em marketing  e investigador
Paulo Ramos – produtor na Quinta de Paços, especialista em marketing e investigador

Paulo Ramos, produtor de na Quinta de Paços, na região dos Vinhos Verdes, especialista em marketing e docente universitário, com vários trabalhos de investigação no setor dos vinhos, concedeu uma entrevista ao Marketing de Vinhos, na qual aborda o momento e as dificuldades que se vivem no meio vitivinícola, nomeadamente em termos de vendas, comunicação e recursos financeiros, e sugere estratégias para ultrapassar estes problemas.

1. Quais são as maiores dificuldades que a situação de pandemia coloca aos produtores de vinho, em termos de vendas, mas também nas vertentes de comunicação e marketing?

Põe muitas dificuldades, sobretudo ao nível do canal HORECA, e na distribuição em geral. Na comunicação até criou algumas oportunidades para se desenvolver mais a comunicação online. Contudo, a falta de provas, visitas e participação em feiras condiciona muito o setor.

Já se viu que isto não vai passar tão depressa, e teremos o agravamento de situações financeiras por parte dos produtores distribuidores que já estão com dificuldades em receber. Igualmente a criação de algumas ações de grande redução de preços ou criação oportunistas com nomes a evocar ao ano e a pandemia, são formas de promoção que podem criar alguma erosão no mercado.

2. Como estudioso do comportamento do consumidor, mas também de acordo com a sua condição de produtor de vinhos, como é que perceciona as novas formas de comunicação, nomeadamente o crescimento exponencial, dos canais relacionados com as redes sociais e as plataformas digitais?

Penso que ainda se está numa curva de aprendizagem onde ainda é difícil avaliar os resultados deste tipo de comunicação, que absorve igualmente recursos e tempo por parte dos produtores. Mas que deve-se tentar manter como uma boa alternativa aos meios mais tradicionais.

Embora neste momento existe até um excesso de oferta que pode cansar os consumidores, é uma das poucas formas de criar alguma ligação entre os consumidores e os produtores.

Paulo Ramos - portfólio de vinhos da Casa de Paços
Paulo Ramos – portefólio de vinhos da Quinta de Paços

3. A imagem é uma das componentes fundamentais, no produto “vinho“, e mais concretamente no seu “packaging“. Como consumidor, prefere rótulos clássicos, e, portanto, mais conservadores, ou prefere rótulos modernos, mais contemporâneos? 

Eu, se vir um rótulo que gosto até sou capaz de o comprar por causa disso. Depende muito o que se quer transmitir em termos de posicionamento da marca. Toda a gente tem opiniões divergentes sobre um determinado rótulo, nomeadamente em termos de produtores, intermediários e consumidores. Contudo, a opinião dos últimos não é muitas vezes valorizada.

Falta ver qual é a real perceção de alguns consumidores sobre este ponto com o da embalagem em geral, como, por exemplo, o caso da garrafa. Por isso nem sempre os ‘designers’ vão ao encontro do que o consumidor final mais privilegia. Ainda são poucos os que os testam com os consumidores.     

4. O Paulo deu recentemente uma entrevista, onde assinala as quebras de vendas de vinho no canal HORECA. Na sua opinião, quais são as alternativas, e/ou medidas, para combater essas perdas?

A entrevista era mais sobre o consumo durante a pandemia, um estudo que estou a fazer com a Academy of Wine Business Research, que ao invés do que se pensava não aponta para um aumento do consumo de vinho em Portugal.

Mas sobre o HORECA não tem havido grandes alternativas, até porque os takes away raramente contemplam, na sua oferta, vinho. Mas seria de tentar dinamizar esta opção, sobretudo em alguma restauração premium que poderia estimular combinações/pairings para os seus menus. Deve-se ainda tentar dinamizar ainda mais o canal de compras online que ainda está com algumas resistências por parte dos consumidores em Portugal.

Casa de Paços - exterior
Casa de Paços – exterior

5. Olhando para 2021, quais os planos para a “sua” Quinta de Paços? Tem uma visão otimista para o futuro da empresa, em particular, e para os vinhos portugueses, em geral?

Apesar de tudo sim. Conseguimos uma boa performance em 2020 apesar da pandemia e graças em parte à exportação para mais maduros e com diferentes canais e opções de comercialização. Para os vinhos portugueses, em geral, igualmente, embora sejamos sempre uma espécie de “next big thing” adiada.

Acho que cada vez tenderemos a melhorar a nossa posição, mas que, comparado com outros países ainda é, em muitos mercados incipiente. O que tem é de se mudar a perceção de que os vinhos portugueses são sobretudo “good value for money”.

Tem que se melhorar as margens e isso em alguns casos implica criar novas DOC ou IG, como foi o caso de Lisboa ou criar uma DOC nova e complementar no caso do Vinho Verde.    

6. Reconhecendo o rico portefólio da Quinta de Paços, se lhe pedisse apenas um único vinho, que personificasse o espírito da casa, enquanto produtora de vinhos, qual seria, e porquê? 

Isto é como escolher um filho… Em Barcelos o Casa de Paços “Family Blend” por ser a reprodução do vinho que sempre se fez cá, que era um blend de Alvarinho, Loureiro, Arinto e Fernão Pires, um pouco a nossa receita de família, e que já foi premiado em 1876 nos EUA.

Em Monção escolhia o Casa do Capitão-mor “Sobre-Lias” por ser igualmente uma recriação dos alvarinhos de outrora com muito tempo de estágio em borra e com fermentação malolática espontânea, e com uma parte de curtimenta e de barrica, um perfil igualmente já premiado no passado em 1888 na Alemanha.   

  

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Apaixonado por Comunicação e Marketing, com formação superior nas áreas de Relações Públicas e Publicidade, e especializações em Marketing de Vinhos, Marketing Digital, Social Media e Turismo. Qualificação em Vinhos WSET® (Wine & Spirit Education Trust).