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Symington emite relatório de vindima intitulado “Garra e Recompensa”

Vindima marcada por desafios, superados pela determinação, esforço e garra dos colaboradores.

A Symington Family Estates acaba de emitir o seu relatório de vindimas, relativo à atual colheita de 2020. Passamos a transcrever o documento, na íntegra, assinado por Charles Symington, enólogo e Diretor de Produção.

Quinta da Senhora da Ribeira no Douro Superior – créditos Francisco Soares “As pessoas por detrás da vindima” – @senhora.da.ribeira_2020

A nossa vindima foi definida por dois desafios — um mais imediato, o outro mais abrangente e, em última análise, muito mais preocupante. A falar em desafios, as primeiras pessoas a esculpir vinhas nas íngremes encostas do vale do Douro fizeram-no com incrível determinação, esforço e garra. Assim, não espanta que a atual geração de lavradores durienses, trabalhadores na vinha, técnicos de viticultura e enólogos responderam aos desafios de adaptação aos condicionamentos do Covid-19 com serena competência e pragmatismo. Ao mesmo tempo, navegaram com êxito através de mais uma vindima pautada pelas provações que a crise climática nos coloca.

A nossa recompensa por produzir uvas numa região tão inacessível, de baixas produções e custos elevados é que podemos passar os dias numa área de beleza arrebatadora, podemos trabalhar com pessoas excecionais e temos a oportunidade de produzir vinhos Douro e vinhos do Porto que têm este espantoso vale no seu DNA.

O impacto do coronavirus

Só temos uma oportunidade de acertar durante a vindima, por isso foi essencial minimizar os riscos de infeções por covid. Implementámos um plano abrangente para criar bolhas protetoras em redor das nossas equipas. Passou por testar todos antes de integrarem as equipas, muitas medidas sanitárias e de segurança nos locais, alojamento adicional e turnos de cantina para assegurar um eficaz distanciamento social.

Foi o primeiro ano desde que adquirimos a Quinta do Vesúvio em 1989 (e muito provavelmente o primeiro desde que a adega foi erguida em 1827) que não houve pisa a pé nos grandes lagares de granito da propriedade. Muito se tem comentado sobre como a pisa a pé produz melhores vinhos comparativamente a outros métodos e nós concordamos quando essa comparação é feita em relação a cubas de fermentação convencionais ou ainda, mecanismos de imersão da manta em lagares de pedra — preferidos em muitas adegas no Douro.

Contudo, no nosso caso, usamos lagares de pisa modernos, por nós desenvolvidos na década de 1990. Estes consistem em ‘pés’ de silicone que efetivamente pisam as uvas, ao replicar a ação e a temperatura do pé humano, proporcionando níveis fantásticos de cor, aroma e extração de compostos de sabor. Só adotamos em pleno este sistema quando nos convencemos — conforme reforçado por provas cegas comparativas de vinhos elaborados em lagares modernos e tradicionais — que os vinhos produzidos em lagares modernos igualavam — e até superavam —aqueles produzidos em lagares tradicionais.

Um ciclo de crescimento precoce

Embora tenhamos estações meteorológicas em várias quintas no Cima Corgo e Douro Superior, usamos tipicamente a da Quinta do Bomfim no Pinhão no coração da região, como a referência para as condições no Douro. Este ano, os níveis de precipitação do inverno e começos da primavera estiveram próximos do normal. No entanto, as temperaturas acima da média (com um mês de fevereiro particularmente soalheiro, cerca de 2°C acima da média dos 30 anos) provocaram um adiantamento do ciclo vegetativo de cerca de 3 semanas — o abrolhamento registou-se na Quinta do Bomfim no dia 3 de março. A floração também se adiantou duas semanas, face ao normal, começando no dia 5 de maio.

Sinais preocupantes de aquecimento

Se a precipitação geral de 2020 permitiu alguma tranquilidade, as temperaturas não — de todo. No Bomfim, todos os meses, com exceção de abril, foram consideravelmente mais quentes comparativamente à tendência dos últimos 30 anos. O Douro registou o mês de julho mais quente desde que há registos: 3,5°C acima da média regional. Tivemos também ondas de calor em junho, agosto e setembro, com múltiplos picos de calor acima das médias de temperatura máxima dos últimos 30 anos (ver tabelas em baixo). De acordo com o IPMA, o período de janeiro a meados de setembro de 2020 foi o mais quente de sempre. Em termos da tendência mundial, cientistas do clima julgam que 2020 será, muito provavelmente, o ano mais quente de sempre desde que os registos começaram em 1850, sendo que 16 dos 17 anos mais quentes desde então ocorreram a partir do ano 2000.

As boas notícias são que as nossas castas autóctones estão bem-adaptadas aos verões quentes e secos do Douro e demonstram uma série de reações naturais às condições desafiantes como, por exemplo, a redução do tamanho dos cachos e dos bagos e o desacelerar das maturações. Também há muito que podemos — e estamos a — fazer para nos adaptarmos a estas condições, desde técnicas básicas de gestão do coberto vegetal das videiras (e a utilização da altitude e da exposição em nosso favor) até às inovações em redor do uso de castas ancestrais, software de previsão climática, robôs da vinha e estudos de stress hídrico. Contudo, as temperaturas consistentemente elevadas (acima dos 35°C) são — sem qualquer dúvida — um problema para a região.

Malabarismos nos planos de corte

Devido ao ciclo de crescimento avançado, sabíamos que tínhamos na calha uma vindima precoce. Com praticamente nenhuma chuva em junho ou julho, os 12,6mm que caíram no Bomfim no dia 20 de agosto deram-nos algum alívio (chuva generosa perto da vindima constitui com frequência um importante contribuidor para os melhores anos Vintage no Douro). Infelizmente, a esta chuva seguiram-se três ondas de calor que duraram até meados de setembro. Com o calor a contrabalançar o benefício da precipitação — e confrontados com a ameaça de desidratação dos bagos — começamos a vindimar as uvas brancas (que estavam em boas condições — surpreendentemente) no dia 25 de agosto, tendo começado a vindimar as tintas a partir do dia 1 de setembro.

As ondas de calor do verão ditaram, logo a partir do início de setembro, quebras significativas nas produções, comparativamente às nossas estimativas de julho (tivemos descidas de rendimentos até 40% nalgumas propriedades). Embora uma colheita mais curta ajude na gestão complicada da logística de vindimar uvas (maioritariamente à mão e com cada vez maior escassez de pessoal), este ano apresentou-nos o cenário de castas que normalmente atingem a maturação de modo sequencial, precisarem de ser vindimadas em simultâneo, sobrepondo-se umas às outras. Tal foi particularmente visível na Touriga Franca, casta tipicamente tardia, a ter de ser recolhida ao mesmo tempo que a Touriga Nacional. Isto acontece muito raramente. De qualquer forma, as nossas experientes equipas na vinha e nas adegas adaptaram-se muito bem por forma a que as adegas foram recebendo cada casta nas melhores condições possíveis.

O Douro é uma região de baixas produções, mesmo em anos de abundância, mas 2020 trouxe- nos uma colheita especialmente pequena. Nalguns locais do Douro Superior vindimámos apenas 400g/videira. Na Quinta dos Malvedos, a principal quinta da Graham’s, tivemos uma média de apenas 600g/videira. Os nossos rendimentos por hectare são quatro vezes inferiores a muitas outras regiões vitícolas. Quando introduzimos na equação os elevados custos de cultivo nas nossas vinhas de montanha, facilmente chegamos à conclusão que a única abordagem viável e responsável para o futuro do Douro passa por posicionar e comercializar os nossos fantásticos vinhos Douro e Portos nos patamares de preços mais elevados.

O lado positivo

Felizmente, a nossa recompensa por navegar estas águas turbulentas foi que as produções inquietantemente baixas, traduziram-se em vinhos incrivelmente concentrados e retintos. As minhas primeiras impressões — confirmadas por provas posteriores — foram de lagares particularmente promissores com Baumés equilibrados. Um ano comparável é o 2009, que foi também muito quente e seco, mas que mesmo assim deu origem a pequenas quantidades de vinhos Douro e do Porto bem estruturados e intensos.

O destaque vai para a Touriga Nacional, que produziu vinhos com excelente estrutura e bons níveis de acidez. Dadas as circunstâncias, não deixa de ser surpreendente. O Sousão também teve um bom comportamento. Já o Alicante Bouschet e a Touriga Franca foram mais impactados pelas elevadas temperaturas, embora tivessem apresentado muita boa qualidade em zonas mais resguardadas (encostas menos expostas e em parcelas com a vantagem da altitude). Estou satisfeito com o impacto que o Sousão e o Alicante Bouschet têm tido nos nossos vinhos do Porto de topo em anos recentes, dando-nos cor, estrutura e acidez — o que é especialmente importante em condições de muito calor.

O facto do terroir do Douro proporcionar uma tamanha variedade de microclimas é uma enorme vantagem no ano como 2020. É necessária uma rara constelação de eventos para que a qualidade em toda a região do Douro seja consistentemente excecional (como foi o caso em 2011, 2016 e 2017), mas os investimentos que temos feito nas nossas vinhas e adegas nas últimas décadas têm-nos permitindo uma muita maior capacidade (face às gerações anteriores) de produzir pequenas quantidades de vinhos Douro e do Porto fora de série — mesmo quando confrontados com condições desafiantes como foi o caso este ano.

De olhos postos no futuro

Todos no Douro estamos preocupados com as alterações climáticas. À medida que o clima mediterrânico avança gradualmente para norte, enfrentamos um aumento das temperaturas médias, níveis de precipitação mais baixos e ondas de calor mais frequentes. Embora as nossas castas sejam resilientes — e mesmo que nos tenhamos estado a preparar durante vários anos para a mudança climática — mais tem de ser feito para ajudar os lavradores para se adaptarem (incluindo investigação abrangente sobre estratégias da vinha e políticas de rega responsável e sustentável). Adicionalmente, para salvaguardarmos o futuro da produção de vinho no Douro, precisamos de ver uma ambiciosa redução nas emissões globais de CO2 durante esta década. Na Symington, estamos a medir de forma transversal, a nossa pegada de carbono e, como membros da International Wineries for Climate Action, comprometemo-nos com ambiciosas metas de redução, baseadas no consenso científico para emissões seguras.

Projeto fotográfico: Este ano tivemos um fotógrafo residente a trabalhar connosco na Quinta da Senhora da Ribeira no Douro Superior. Poderá ver a exposição digital do Francisco Soares, “As pessoas por detrás da vindima”, constituída por 45 deslumbrantes retratos (cada acompanhado de uma pequena descrição ou estória), no Instagram, aqui: @senhora.da.ribeira_2020.”

Charles Symington – Enólogo e Diretor de Produção